Fig 1. Registro da cidade de São Paulo (SP) à noite chama atenção pelo excesso de luzes. Crédito: Sergio Souza/ Getty Images

Saiba mais sobre os problemas associados à exposição excessiva à luz durante a noite

É noite, mas está claro. O excesso de luz artificial vem de várias fontes, por exemplo, de postes, de anúncios luminosos, de veículos, de imóveis… Todos esses elementos podem causar o que chamamos de poluição luminosa, um problema cada vez mais importante, principalmente em cidades. Mas você sabia que a poluição luminosa pode prejudicar a saúde dos seres humanos? Vamos descobrir como isso acontece.

Um estudo da Universidade de Exeter, na Inglaterra, estimou que, entre 1992 e 2017, o uso excessivo de luzes durante a noite cresceu, pelo menos, 49% em todo o mundo. Mas como a pesquisa utilizou dados de sensores de satélite que não captam alguns tipos de luz, por exemplo, a luz azul, que é emitida principalmente por lâmpadas LED, os cientistas acreditam que a situação é ainda pior.

Embora a presença de luzes artificiais seja importante para conferir maior segurança durante a noite, o excesso de luminosidade pode trazer vários problemas.

Sono prejudicado

Os impactos da poluição luminosa sobre a saúde humana ainda não estão totalmente mapeados e compreendidos, mas já se sabe, por exemplo, que ela afeta os ciclos biológicos, especialmente o ciclo circadiano. Mas que ciclo é esse? Calma! Vamos explicar!

O ciclo circadiano determina o ritmo natural do corpo e se repete a cada 24 horas. É, portanto, o nosso ‘relógio biológico’ interno e regula o sono, a produção de hormônios, a temperatura do corpo, o metabolismo, entre outros aspectos.

A exposição noturna excessiva à luz pode levar à redução da produção de melatonina, hormônio que auxilia no ciclo de sono e vigília, favorecendo a ocorrência de distúrbios do sono como insônia.
Mas além de regular o sono, a melatonina possui também outras propriedades, entre elas, ação anti-inflamatória, antioxidante e auxilia na forma como o corpo transforma e usa a energia dos alimentos. Então, sua redução traz ainda outros problemas.
A situação é ainda pior dependendo do tipo de luz. Estudos mostram, por exemplo, que luzes LED e fluorescentes compactas (CFL) frias promovem uma supressão maior da melatonina.

Fig 2. Veja no gráfico a produção de melatonina pelo nosso organismo em um período de 24 horas. O pico de produção acontece durante a madrugada e a exposição à luz excessiva neste momento pode reduzir essa produção. Crédito: Rechargeenergy/Wikimedia Commons (adaptado por Invivo)

 

Outros impactos na saúde das pessoas

Diferentes estudos têm revelado associação entre exposição excessiva à luz artificial durante a noite e risco aumentado de alguns tipos de câncer, diabetes, obesidade e outros fatores de risco cardiovasculares.

Um estudo publicado em 2024 e conduzido com mais de 13 mil chineses revelou, por exemplo, que pessoas que moravam em regiões que eram mais iluminadas à noite apresentaram um risco 31% maior de ter hipertensão.

Ainda na China, cientistas estimaram que até 9 milhões dos casos de diabetes entre chineses adultos podem estar ligados à poluição luminosa.

Também há estudos que mostram que a exposição excessiva à luz artificial noturna pode impactar a saúde mental, causando, por exemplo, aumento do risco de depressão.

A dimensão do problema é ainda maior quando olhamos os números. Dados do Atlas Mundial do Brilho Artificial do Céu Noturno, de 2016, apontaram que mais de 80% da população mundial viviam sob céus afetados pela poluição luminosa.

Fig 3. A imagem acima da NASA (Agência Espacial dos Estados Unidos) apresenta a evolução das luzes noturnas no período de 2014 a 2022. Os pontos dourados representam aumento, enquanto os roxos mostram diminuição da luminosidade. Crédito: NASA Earth Observatory/Michala Garrison

 

Efeitos em outros seres vivos

Além de afetar as pessoas, a poluição luminosa pode impactar os ciclos biológicos de outros seres vivos e também prejudicá-los de várias maneiras.

Imagina ser um recém-nascido e ter que atravessar a areia para alcançar o mar, sendo guiado apenas pela claridade do reflexo da lua ou das estrelas na água? Agora, pense em fazer isso em um local cheio de fontes de luz artificial? Esse é o desafio que filhotes de tartarugas marinhas recém-nascidos enfrentam nas praias de cidades que convivem com a poluição luminosa.

A presença de luz artificial nas praias durante à noite pode desorientar os filhotes de tartarugas marinhas, impedindo-os de alcançar o mar. Longe da água, eles podem morrer desidratados ou por exaustão e até sofrer com o ataque de predadores.

Fig 4. Filhotes de tartaruga marinha caminhando em direção ao mar. Crédito: Elen Marlen/Getty Images

 

Além de tartarugas marinhas, a poluição luminosa também impacta peixes migratórios, insetos, aves e outros animais. O excesso de luz à noite desorienta, mas também altera comportamentos, prejudica a reprodução e pode afetar a sobrevivência, a abundância e a distribuição de espécies.

Observação do céu também é prejudicada

O impacto também se estende para a ciência, particularmente para a astronomia, que estuda os corpos celestes, como estrelas, planetas, galáxias, entre outros, e fenômenos que acontecem no Universo.

Você já reparou que vemos mais estrelas no céu em locais com pouca luz? Por isso, observatórios astronômicos costumam ser construídos longe das cidades. Os telescópios espaciais também são afetados pela poluição luminosa. Pesquisadores da NASA calculam, por exemplo, que cerca de 40% das imagens captadas pelo Telescópio Espacial Hubble e 96% daquelas obtidas pelo observatório espacial SPHEREx podem estar contaminadas pela luz de satélites ou refletida pelo lixo espacial.

Por outro lado, outras pesquisas mostram que telescópios que estão posicionados em órbitas mais distantes são menos afetados pela poluição luminosa. No entanto, eles são usados para estudos específicos e têm um tempo de operação limitado.

Saiba mais:

Poluição sonora: um problema mundial de saúde pública

Como o cérebro percebe o mundo: visão e audição

 

Fontes consultadas:

Revista Galileu. Poluição luminosa cresceu 49% nos últimos 25 anos, diz estudo global. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Um-So-Planeta/noticia/2021/10/poluicao-luminosa-cresceu-49-nos-ultimos-25-anos-diz-estudo-global.html. Publicação em: 2 out 2021. Acesso em: 7 ago 2026.

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Por Teresa Santos

Data Publicação: 14/08/2026