
Fig 1. A ciência ainda investiga se animais podem apresentar comportamentos incomuns antes de grandes tragédias. Crédito: marrio31/Getty Images
Confira o que dizem os cientistas sobre a possível habilidade de animais de prever terremos, tsunamis, avalanches e outros eventos
Em 26 de agosto de 2026, uma avalanche de gelo e lama provocou uma inundação repentina na região da fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China. O evento possivelmente foi causado pelo desprendimento de uma geleira, que também liberou energia equivalente a um tremor de magnitude 5,2. O desastre destruiu casas, estradas e outras estruturas, e deixou milhares de mortos e desaparecidos.
Em meio às imagens da tragédia que circularam pelas redes sociais, um vídeo de uma câmera de segurança chamou a atenção de usuários. A gravação mostra aves voando e pessoas correndo antes da passagem da avalanche pelo local.
A revoada de pássaros antecipando a devastação. Um assombro. Que dia triste. https://t.co/eewjC4YBov
— Flávia Oliveira (@flaviaol) August 26, 2026
Mas histórias como essa não são suficientes para afirmar que animais conseguem prever grandes desastres naturais. Afinal, o que a ciência descobriu sobre essa possível habilidade?
Uma história que vem de longe
Relatos de comportamentos incomuns de animais antes de terremotos existem há milhares de anos. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), uma das primeiras histórias conhecidas vem da Grécia Antiga. Em 373 a.C., ratos, doninhas, cobras e centopeias teriam deixado seus abrigos antes de um terremoto destrutivo.
Desde então, histórias semelhantes foram registradas em diferentes lugares. Há relatos envolvendo cães, gatos, vacas, aves, peixes, répteis e insetos.
Mas existe uma diferença importante entre observar um comportamento estranho e demonstrar cientificamente que ele está relacionado a um desastre.
Até hoje, os cientistas não encontraram um comportamento animal específico que aconteça de maneira consistente antes dos terremotos. Por isso, animais não podem ser usados atualmente para prever quando um terremoto vai acontecer.
Animais podem sentir um terremoto antes dos humanos?
Uma possibilidade é que alguns animais simplesmente percebam sinais que os seres humanos não conseguem detectar.
Quando um terremoto acontece, ele envia pelo solo duas mensagens em momentos diferentes: primeiro chegam as ondas P, mais rápidas e leves, que passam quase imperceptíveis para a maioria das pessoas; logo em seguida vêm as ondas S, mais lentas, mas responsáveis pelo balanço forte que sacode tudo.
A grande diferença é que muitos animais possuem sentidos apurados capazes de captar esse primeiro aviso sutil, o que explica por que eles costumam reagir de forma agitada alguns segundos antes do tremor principal ser sentido por nós.
Entretanto, isso não seria exatamente uma previsão. O terremoto já teria começado. O animal apenas teria percebido seus primeiros sinais antes de uma pessoa.
E se o comportamento acontecer antes?
A questão fica mais difícil quando os relatos apontam para mudanças de comportamento horas, dias ou até semanas antes de um terremoto.
O geofísico Joseph Kirschvink discutiu essa possibilidade em um estudo publicado em 2000. Ele propôs que alguns animais poderiam ser capazes de perceber alterações ambientais relacionadas à atividade sísmica por meio de seus sentidos.
Entre as possibilidades estão mudanças nas vibrações do solo e em outras características físicas do ambiente.
A hipótese é interessante, mas ainda não existe evidência suficiente para transformar essas observações em um sistema confiável de previsão.
Terremoto no Japão em 2011 e tsunamis no Oceano Índico em 2004

Fig 2. Destruição após os abalos sísmicos que aconteceram em Tohoku, no Japão, em 2011. Crédito: enase/Getty Images
Um estudo realizado depois do terremoto de magnitude 9,0 que atingiu a região de Tohoku, no Japão, em 2011, investigou justamente os relatos de comportamento animal.
Os pesquisadores entrevistaram tutores de cães e gatos sobre mudanças observadas antes do terremoto. Entre 1.259 tutores de cães, 236 relataram algum comportamento incomum. Entre 703 tutores de gatos, 115 fizeram relatos semelhantes.
Relatos semelhantes também apareceram depois do tsunami que atingiu o Oceano Índico em 2004.
Em reportagem publicada poucos dias depois da tragédia, a National Geographic reuniu relatos de testemunhas sobre animais que teriam apresentado comportamentos incomuns antes da chegada das ondas.
Entre eles, estavam elefantes que teriam corrido para áreas mais altas, cães que se recusaram a sair de casa, flamingos que deixaram áreas baixas e animais de zoológicos que buscaram abrigo. Também foram relatados morcegos que teriam voado para longe da costa.
No entanto, essas observações foram feitas sem registros sistemáticos de comportamento dos animais, o que dificulta saber se eles perceberam o perigo com antecedência.
Prever não é o mesmo que perceber
Um animal pode ouvir, sentir ou perceber uma mudança no ambiente antes de um ser humano. Isso não significa que ele saiba que um terremoto, tsunami ou avalanche vai acontecer.
Imagine, por exemplo, que uma pessoa escute um barulho antes de uma porta bater. Ela percebeu um sinal que chegou antes do acontecimento que chamou sua atenção. Mas isso não significa que consiga prever exatamente quando, onde ou como a porta vai bater.
Com os animais, pode acontecer algo parecido.
No caso do vídeo que circulou após a avalanche na fronteira entre Nepal e Tibete, é possível que as aves tenham reagido a algum estímulo do ambiente. Mas, sem informações sobre o que aconteceu antes da gravação, sobre outras aves na região e sobre quais sinais poderiam ter sido percebidos, não é possível afirmar qual foi a causa da mudança de comportamento.
Então, animais podem prever desastres naturais?
Por enquanto, não há evidências suficientes para dizer que animais conseguem prever desastres naturais.
O que a ciência mostra é mais interessante e complexo. Animais podem possuir sentidos diferentes dos nossos e talvez sejam capazes de perceber algumas mudanças ambientais antes que nós.
O desafio para os cientistas é descobrir quais mudanças são importantes, quais animais conseguem percebê-las e se essas respostas acontecem de maneira repetida antes de diferentes desastres.
Enquanto isso, vídeos de animais agindo de maneira incomum podem despertar nossa curiosidade. Mas, para a ciência, uma imagem isolada é apenas o começo de uma pergunta. E não uma previsão.
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Fontes consultadas:
UNITED STATES GEOLOGICAL SURVEY (USGS). Animals & Earthquake Prediction. Earthquake Hazards Program. Disponível em https://www.usgs.gov/programs/earthquake-hazards/animals-earthquake-prediction. Acesso em: 27 ago. 2026.
G1. Terremoto atinge o Tibete um dia após a avalanche na fronteira com o Nepal. Disponível em https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/08/27/terremoto-atinge-o-tibete-um-dia-apos-a-avalanche-na-fronteira-com-o-nepal.ghtml. Publicação em: 27 ago. 2026. Acesso em: 27 ago. 2026.
KIRSCHVINK, J. L. Earthquake prediction by animals: evolution and sensory perception. Bulletin of the Seismological Society of America, v. 90, p. 312–323, 2000. https://doi.org/10.1785/0119980114
YAMAUCHI, H. et al. Unusual animal behavior preceding the 2011 earthquake off the Pacific Coast of Tohoku, Japan: a way to predict the approach of large earthquakes. Animals, v. 4, n. 2, p. 131–145, 2014. https://doi.org/10.3390/ani4020131
MOTT, Maryann. Animals can sense tsunami coming, scientists say. National Geographic. Disponível em https://www.nationalgeographic.com/animals/article/news-animals-tsunami-sense-coming. Publicação em: 4 jan. 2005. Acesso em: 26 ago. 2026
OLIVEIRA, Flávia. A revoada de pássaros antecipando a devastação. Um assombro. Que dia triste. X: @flaviaol. Disponível em https://x.com/flaviaol/status/2092723656342262141. Publicação em: 26 ago. 2026. Acesso em: 27 ago. 2026.
Por Rodrigo Narciso
Data Publicação: 03/09/2026
- comportamento animal
- mudanças climáticas
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