Fig 1. Música chiclete, earworm ou imagem musical involuntária são termos que explicam o mesmo fenômeno: repetição mental de uma canção ou trecho de música. Créditos: Inside Creative House/Getty Images

Entenda os processos que acontecem no nosso cérebro que tornam algumas melodias mais difíceis de esquecer

É só ouvir algumas notas de uma música para, de repente, ela começar a se repetir mentalmente. Às vezes, acontece depois de escutar uma canção no rádio, assistir a um vídeo nas redes sociais ou até mesmo lembrar de um trecho que não era ouvido há algum tempo. Mesmo sem nenhum som vindo de fora, a melodia parece continuar tocando dentro da cabeça.

Esse fenômeno é conhecido como earworm, termo em inglês que significa literalmente “verme de ouvido”. Em português, também é chamado de “música chiclete”, “música presa” ou imagem musical involuntária (IMI). A expressão descreve a experiência de imaginar involuntariamente uma música ou um pequeno trecho musical que se repete mentalmente.

Mas por que isso acontece? Por que algumas músicas parecem ter uma capacidade especial de permanecer na memória? E existe alguma maneira de fazer com que elas parem de tocar?

Quando a música continua mesmo depois que o som acaba

Para entender o earworm, primeiro é preciso diferenciar ouvir uma música de imaginar uma música. Quando uma canção está tocando, ondas sonoras chegam ao ouvido e são transformadas em sinais que seguem até o cérebro. Uma das regiões envolvidas nesse processamento é o córtex auditivo, localizado no lobo temporal. É nele que informações relacionadas aos sons são analisadas, como frequência e intensidade.

Fig 2. Ilustração vetorial de lóbulos cerebrais coloridos. O córtex auditivo está localizado no lobo temporal (em roxo). Créditos: Blueringmedia/Getty Images (adaptado por Invivo)

 

O interessante é que a atividade relacionada à música não termina necessariamente quando o som deixa de ser ouvido. O cérebro também é capaz de representar mentalmente aquilo que escutamos. Assim, podemos “ouvir” internamente uma melodia mesmo quando não existe nenhum som externo.

Pesquisas sobre imagens musicais involuntárias relacionam esse processo à memória e à chamada memória de trabalho, sistema responsável por manter e manipular temporariamente informações que estamos utilizando.

É nesse contexto que surge o earworm: um trecho musical é recuperado involuntariamente e passa a ser repetido mentalmente.

Por que algumas músicas “grudam” mais?

Não existe uma fórmula única que determine quais músicas vão se transformar em um earworm. Ainda assim, algumas características parecem favorecer o fenômeno. A familiaridade com a música, a repetição e elementos que tornam uma melodia fácil de reconhecer e cantar podem contribuir para que ela permaneça na memória.

Um estudo publicado em 2023 no Quarterly Journal of Experimental Psychology investigou justamente a relação entre a repetição e o surgimento das chamadas músicas chiclete. A pesquisa, realizada pelos pesquisadores Callula Killingly e Philippe Lacherez e disponibilizada nas bases da National Library of Medicine, contou com 44 participantes.

Durante o experimento, os participantes ouviram quatro refrões de músicas que não conheciam. Para analisar o efeito da exposição, cada música foi apresentada entre uma e quatro vezes. No dia seguinte, os participantes realizaram testes de memória enquanto ouviam novamente os trechos, e durante momentos de silêncio. Eles ainda avaliaram aspectos como familiaridade, prazer, vontade de cantar junto e o quanto consideravam cada música “chiclete”.

Os resultados mostraram que a exposição repetida pode aumentar a possibilidade de uma música permanecer na mente. Entre os participantes, 68% relataram ter experimentado pelo menos uma das músicas como earworm durante a segunda sessão, enquanto 52% disseram ter vivenciado o fenômeno no intervalo entre as duas sessões. Além disso, a familiaridade com os refrões e a vontade de cantar junto aumentaram significativamente depois da exposição.

Earworm vai além da repetição…

Embora o estudo do Quarterly Journal of Experimental Psychology tenha mostrado que a chance de earworm aumentou com a exposição repetida à canção, isso não significa que ouvir uma música várias vezes fará necessariamente com que ela fique sendo retida em nossa memória. Os próprios pesquisadores observaram que o efeito variou de acordo com a música. A exposição repetida parece ter importância, mas as características específicas de cada canção também influenciam seu potencial de se tornar um earworm.

Fig 3. Exposição repetida à melodia e características da canção são alguns dos elementos que ajudam a explicar por que algumas músicas permanecem na nossa memória mesmo quando não estão mais sendo tocadas. Créditos: Rawpixel/Getty Images

O estudo também ajuda a explicar por que músicas que inicialmente são desconhecidas podem se tornar familiares rapidamente. Depois da exposição, os participantes demonstraram maior familiaridade com os refrões e maior vontade de cantar junto. Em outras palavras, a repetição pode ajudar o cérebro a construir uma representação mais familiar daquela música, tornando sua recuperação posterior mais fácil.

Além da repetição, pesquisas anteriores citadas pelos autores apontam que os trechos que se transformam em earworms costumam ser curtos, simples e repetitivos, características que podem facilitar sua recuperação mental. Músicas com vocais também aparecem com frequência nesse tipo de experiência.

Assim, aquela música que aparece repetidamente na cabeça não depende apenas de ela ser “boa” ou “ruim”. O fenômeno envolve uma combinação entre exposição, familiaridade, características da própria música e processos de memória.

O que pode fazer uma música voltar à cabeça?

A música não precisa estar tocando para reaparecer na mente. Situações, palavras, lugares e até outras músicas podem funcionar como pistas para recuperar uma melodia que já está armazenada na memória.

Essas associações podem ser especialmente fortes quando uma canção está ligada a alguma experiência ou emoção. Uma música ouvida durante uma viagem, por exemplo, pode voltar à lembrança anos depois quando a pessoa encontra uma situação, um lugar ou uma sensação relacionada àquela experiência.

O contexto também pode favorecer o surgimento do fenômeno. Atividades que exigem pouca concentração, como tomar banho, caminhar ou realizar tarefas repetitivas, deixam mais espaço para pensamentos espontâneos. É nesses momentos que uma música conhecida pode surgir na mente sem que a pessoa tenha decidido pensar nela.

Isso ajuda a explicar por que não existe um único padrão para os earworms. Uma mesma música pode ser esquecida rapidamente por uma pessoa e permanecer na cabeça de outra. A familiaridade com a canção, as experiências individuais e o contexto em que ela é ouvida podem influenciar essa experiência.

É possível encerrar o efeito da imagem musical involuntária?

Na maioria das vezes, o earworm desaparece sozinho. Mas quando ele não desaparece tão rápido e a repetição começa a incomodar, algumas estratégias podem ajudar a mudar o foco da atenção. Uma delas é realizar uma atividade que exija concentração. Ler, resolver um problema ou se dedicar a uma tarefa pode ocupar a atenção e diminuir o espaço disponível para a música continuar sendo lembrada.

 

Fig 4. Não consegue parar de repetir mentalmente um mesmo trecho de uma música? Ler pode ser uma alternativa para interromper a repetição mental da canção. Créditos: Kevajefimija/Getty Images

 

Outra possibilidade estudada é ouvir a música inteira. A estratégia parte da hipótese de que completar a sequência musical pode ajudar a interromper a repetição de um pequeno trecho.

No entanto, as evidências ainda são limitadas e ouvir a música até o fim não funciona necessariamente para todas as pessoas. Também é possível tentar substituir a música por outra atividade mental. Nesse caso, porém, existe um risco curioso: trocar uma música chiclete por outra.

Música chiclete é sinal de algum problema?

Ter uma música repetindo involuntariamente na cabeça é uma experiência comum e, na maioria das vezes, não representa um problema de saúde. O fenômeno faz parte da forma como o cérebro processa e recupera informações musicais e pode acontecer mesmo quando não há nenhuma intenção de lembrar daquela canção.

A experiência, porém, varia de pessoa para pessoa. Enquanto alguns earworms duram apenas alguns minutos, outros podem permanecer por mais tempo e causar incômodo. Quando essas experiências se tornam muito frequentes, persistentes ou passam a interferir nas atividades cotidianas, é importante buscar orientação profissional para entender o que está acontecendo.

No dia a dia, uma música chiclete pode parecer apenas uma situação curiosa, mas o fenômeno interessa aos pesquisadores justamente por revelar como diferentes processos mentais estão relacionados. A facilidade com que uma melodia pode ser recuperada, mesmo sem que esteja sendo ouvida, ajuda a ciência a compreender melhor a relação entre música, memória, atenção e experiências pessoais.

Da próxima vez que um refrão aparecer inesperadamente na sua cabeça, talvez seja possível enxergá-lo de outra maneira: aquela música não está simplesmente “tocando” sozinha. Ela é resultado de uma complexa capacidade do cérebro de guardar, associar e recuperar informações sonoras.

 

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Fontes consultadas:

Ferreira, Helena R. Neurociência comportamental e sistêmica de earworms. SciELO Preprints, 2025. DOI: 10.1590/SciELOPreprints.14488.

Killingly, Callula; Lacherez, Philippe. The song that never ends: The effect of repeated exposure on the development of an earworm. Quarterly Journal of Experimental Psychology (Hove). 2023 Nov;76(11):2535-2545. doi: 10.1177/17470218231152368

UP PRODUTORA. Por que algumas músicas grudam na cabeça? O fenômeno do “earworm”. Disponível em: https://produtoraup.com.br/blog/74/por-que-algumas-musicas-grudam-na-cabeca-o-fenomeno-do-.html. Publicação em: 17 jul. 2025. Acesso em: 18 ago 2026.

Vespa, Talyta. G1. O que acontece com o cérebro quando uma música não sai da cabeça? Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2025/11/30/o-que-acontece-com-o-cerebro-quando-uma-musica-nao-sai-da-cabeca.ghtml. Publicação em: 30 nov 2025. P Acesso em: 18 ago 2026.

Scientific American (Tik Tok). . Disponível em: https://www.tiktok.com/@scientificamerican/video/7476581694707961130?_r=1&_t=ZS-98vopxgtnKn. Publicação em: 28 fev 2025. Acesso em: 18 ago 2026.

 

Por Milena Januário

Data Publicação: 26/08/2026