
Fig 1. Ao maratonar séries, diversas áreas cerebrais entram em ação simultaneamente. Crédito: Maca and Naca/Getty Images
Descubra por que assistir vários episódios seguidos de programas televisivos pode gerar prazer, criar vínculos emocionais e até dificultar a hora de desligar a televisão
A cena é comum: termina um episódio de uma série e, antes mesmo de decidirmos o que fazer, a plataforma já inicia o próximo. O que parecia ser apenas uma pausa para relaxar se transforma em horas acompanhando uma mesma história em frente à televisão.
Esse comportamento, conhecido como binge-watching (em português, maratona de séries), tornou-se uma das formas mais populares de entretenimento dos tempos atuais. Impulsionado pelas plataformas de streaming, ele mudou a maneira como consumimos produções audiovisuais e despertou o interesse de pesquisadores das áreas de psicologia, comunicação e neurociência. Afinal, o que acontece no cérebro quando passamos horas assistindo episódios de um programa televisivo em sequência? A resposta envolve mecanismos relacionados à atenção, à recompensa, à emoção e até à forma como nos conectamos com personagens fictícios.
Histórias que prendem a atenção
O cérebro humano é naturalmente atraído por histórias. Desde a infância, usamos narrativas para compreender o mundo, transmitir conhecimentos e interpretar experiências.
Ao assistir a uma série, diversas áreas cerebrais entram em ação simultaneamente. Enquanto acompanhamos os acontecimentos, tentamos antecipar o que vai acontecer, interpretamos emoções dos personagens e guardamos informações importantes para entender a trama.
Pesquisadores chamam esse fenômeno de “transporte narrativo”. É a sensação de estar tão envolvido na história que, por alguns momentos, o mundo ao redor parece perder importância. E, quanto maior a imersão, maior tende a ser o desejo de continuar assistindo.

Fig 2. Assistir a uma série ou filme ativa uma rede de áreas cerebrais, entre elas, a região anterior do lobo frontal (rosa), que é responsável por manter o foco na história e raciocinar; o lobo occipital (azul mais claro), onde informações visuais são processadas e interpretadas e o lobo temporal (azul mais escuro), que processa o som e atua na memória. Crédito: SophonK/Getty Images (adaptado por Invivo)
O prazer de descobrir o próximo capítulo
Uma das razões que explicam as maratonas de séries está no funcionamento do sistema de recompensa cerebral.
Muitas séries criam episódios que terminam deixando perguntas sem resposta ou situações em suspense. Sendo assim, o cérebro interpreta essa incerteza como um problema que precisa ser resolvido.
A expectativa de descobrir o que acontecerá em seguida gera uma sensação de antecipação que pode ser extremamente prazerosa. Ou seja, não é apenas a história que nos prende, mas também a promessa da próxima revelação.
Por isso, a decisão de assistir apenas mais um episódio nem sempre depende apenas da força de vontade.
Personagens que parecem reais
Outro aspecto interessante é a relação emocional construída com os personagens. Embora saibamos que eles são fictícios, nosso cérebro responde às suas histórias de maneira muito semelhante à forma como reage às experiências sociais reais. E, conforme avançamos nos episódios, criamos mais familiaridade, empatia e identificação.
Esse fenômeno é conhecido como relação parassocial. Trata-se de um vínculo afetivo unilateral, no qual o espectador sente proximidade com alguém que, na prática, não sabe da sua existência. Esse tipo de conexão emocional pode ser estabelecido com um personagem fictício, mas também com figuras públicas reais, influenciadores e até com inteligências artificiais.
Em alguns casos, especialmente durante momentos de isolamento ou solidão, essas conexões podem gerar conforto emocional e sensação de companhia.
Quando o entretenimento vira fuga
Nem todas as pessoas assistem séries pelos mesmos motivos. Estudos mostram que muitos espectadores procuram apenas diversão e relaxamento. Outros utilizam as maratonas para aliviar o estresse do cotidiano, escapar temporariamente de preocupações e/ou regular emoções negativas.
Isso não significa necessariamente que exista um problema. Afinal, atividades de lazer frequentemente cumprem esse papel.
No entanto, pesquisadores observam que o consumo contínuo e em curto período de tempo de grande quantidade de conteúdo audiovisual pode se tornar preocupante quando passa a ser utilizado como principal estratégia para lidar com dificuldades emocionais ou evitar situações desagradáveis da vida cotidiana.

Fig 3. Assistir a vários episódios faz parte do lazer, mas quando se torna um comportamento excessivo, pode trazer danos ao cérebro. Crédito: Doucefleur/Getty Images
O sono costuma pagar a conta
Se existe um efeito frequentemente associado às maratonas de séries, ele está relacionado ao sono.
Ao acompanhar uma narrativa envolvente, o cérebro permanece estimulado por mais tempo. A excitação emocional gerada pela trama, somada à curiosidade para descobrir os próximos acontecimentos, pode dificultar o momento de encerrar a sessão.
Diversos estudos encontraram associações entre maratonas noturnas e redução da qualidade do sono, aumento da fadiga e maior dificuldade para adormecer. Além disso, muitas pessoas acabam adiando o horário de dormir para assistir mais um episódio (e depois mais um).
Nem vício, nem vilão
Apesar das comparações frequentes com comportamentos compulsivos, os cientistas ainda não consideram a prática de maratonar séries uma dependência reconhecida.
A maioria das pessoas consegue assistir vários episódios seguidos sem que isso provoque prejuízos significativos. O problema surge quando a atividade começa a comprometer o trabalho, os estudos, o descanso ou os relacionamentos.
Por isso, especialistas defendem que é importante diferenciar uma maratona ocasional de um comportamento excessivo e recorrente.
Entre o prazer e o equilíbrio
As maratonas de séries revelam uma característica profundamente humana: nosso fascínio por boas histórias.
Histórias despertam emoções, estimulam a imaginação e criam conexões com personagens e universos fictícios. Não é por acaso que tantas pessoas têm dificuldade em interromper uma temporada pela metade.
O desafio não está em assistir séries, mas em perceber quando o entretenimento deixa de ocupar um espaço saudável na rotina. Afinal, se o cérebro adora histórias bem contadas, ele também precisa de pausas para descansar e voltar ao mundo real.
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Fontes consultadas
STAROSTA, J. A.; IZYDORCZYK, B. Understanding the Phenomenon of Binge-Watching—A Systematic Review. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 17, n. 12, p. 4469, 2020. http://dx.doi.org/10.3390/ijerph17124469. Acesso em: 22 jun 2026.
Northwestern Medicine. Binge-Watching: What It Does to Your Mind and Body. Disponível em: https://www.nm.org/healthbeat/healthy-tips/emotional-health/binge-watching. Atualizado em: Ago 2024. Acesso em: 22 jun 2026.
Page, Danielle. NBC News. What happens to your brain when you binge-watch a TV series? Disponível em: https://www.nbcnews.com/better/health/what-happens-your-brain-when-you-binge-watch-tv-series-ncna816991. Publicado em: 4 nov 2017. Acesso em: 22 jun 2026.
Por Rodrigo Narciso
Data Publicação: 01/07/2026
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