Fig 1. Pets da equipe do Invivo comprovam que ter um bichinho em casa pode ajudar mais na saúde mental do que você imagina. Crédito: Acervo Pessoal

Invivo ouviu tutores e especialistas sobre a relação entre pets e bem-estar

Você tem um animalzinho de estimação? Ou, como também gostamos de chamar, um “pet”, do termo em inglês. Sabia que, além de ser companhia dentro da sua casa, eles também podem ajudar com sua saúde mental? Segundo estudos, adotar um pet vai além de cuidado, responsabilidade e afeto. Ou seja, mesmo sem saber, ele também tem papel fundamental no seu bem-estar.

Aproveitando o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, vamos entender melhor como isso funciona.

A princesa e o youtuber

Rafael Ferreira, 30 anos, é criador de conteúdo geek na Internet e adotou uma gata em 2015. Hime, como é chamada, veio quase ao mesmo tempo de um novo relacionamento afetivo com a então namorada do influenciador. “Uma gata deu luz no quintal do pai dela, eu falei brincando que a gente poderia ficar com um dos filhotes”, comentou, ao Invivo.

Ferreira diz que foi criado em uma família que estava acostumada a não se expressar em relação a sentimentos – sejam eles bons ou ruins. Dar abraços ou beijos era uma raridade dentro de seu lar. Com a chegada de Hime, nome que vem do japonês para “Princesa”, isso mudou de forma gradativa.

Fig 2. Hime, a princesa, ao lado de Rafael Ferreira, criador de conteúdo geek. Crédito: Acervo Pessoal

O criador de conteúdo conta que, passados cinco anos da adoção, sua agora esposa chamou a atenção para o fato positivo de que ele passou a expressar melhor seus sentimentos – comportamento que foi corroborado por um relato de sua mãe. “Ela me ensinou a aceitar que eu tenho sentimentos, e expressar isso é legal (de vez em quando)”, brincou.

O que psicólogos dizem sobre a adoção de pets

Segundo a psicóloga Ariadne Barbarino, especializada em ACP (Abordagem Centrada na Pessoa), este tipo de influência tem bastante fundamento. A profissional usa como base o estudo “Interação humano-animal: o apego interespécie”[JO1.1], publicado na revista Perspectivas em Psicologia pelas pesquisadoras Luiza Alves e Simone Steyer, ambas vinculadas à Faculdade IENH, de Novo Hamburgo, RS.

Para ela, a convivência com um animal pode contribuir para a qualidade de vida justamente por reunir diferentes aspectos de uma rotina, como responsabilidade, cuidado, vínculo e companhia. “Eu diria que a pessoa adquire certa qualidade de vida, senso de responsabilidade, vínculo com o pet”, explica Barbarino.

A psicóloga conta ainda que muitos estudos apresentam pets como facilitadores de regulação emocional para pessoas neuroatípicas, neurotípicas ou pessoas com transtornos mentais. “O vínculo emocional tem um papel essencial na saúde mental e no bem-estar psicológico, atuando como proteção contra os efeitos negativos de experiências traumáticas e promovendo a regulação emocional”, complementa.

Um estudo publicado no jornal acadêmico Preventive Medicine Reports aponta ainda que pessoas com mais de 65 anos que cuidam de cachorros têm 40% menos chance de desenvolver demência, por exemplo. Apesar de estarmos acostumados a alguns tipos de pets, os efeitos positivos podem vir também de outros vários, segundo Barbarino. “Estamos mais familiarizados com cães, gatos, peixes, alguns pássaros e roedores. Mas existem também tutores de anfíbios, coelhos, animais de fazenda, e por aí vai!”, complementa.

Fig 3. Até mesmo pássaros são pets que podem participar da vida de um tutor. Créditos: Slavica/Getty Images

Pets na pandemia e questões específicas de saúde

Ainda segundo Barbarino, pessoas que possuem questões de saúde específicas podem ter mais benefícios ao adotar um pet. ” Questões relacionadas à paralisação das atividades cotidianas (em transtornos como depressão, fibromialgia, etc) e transtornos de ansiedade”, aponta.

É o caso de Júlia Simões, também psicóloga, que adotou a cachorra Kate em 2020. “Ela é filhote de pandemia”, diz. “Adotei ela por sugestão da minha mãe, morava com ela na época e até então não gostava de nenhum animal. Mas eu tinha sido diagnosticada recentemente com artrite reumatoide, uma doença autoimune e de dor crônica. Estava tendo muitas crises de dor e por isso desenvolvi um quadro de depressão, além de ter virado grupo de risco em relação ao Covid. Fiquei com medo de morrer”, explica Simões.

Fig 4. Kate foi adotada na pandemia por Júlia e a convivência mudou a realidade do seu dia a dia. Créditos: Acervo Pessoal

A tutora de Kate diz ainda que a cachorra trouxe uma nova rotina para a casa, como a necessidade de brincadeiras, dar comida, fazer companhia, entre outros.

– Eu saía de casa, ia a praças, pegava sol. Antes, eu não queria sair, com medo, não tinha ânimo e vontade. Ter a Kate também me ajudou a ter uma rotina, que é um fator que impacta a saúde mental, além de me movimentar e me exercitar mais vezes.

É só adotar e esperar tudo melhorar?

Ter ou adotar um pet não é garantia de cura ou melhoria definitiva para qualquer condição, mas pode ajudar. Esse movimento, porém, precisa vir acompanhado de outras ações, que complementam cuidados com a saúde mental da pessoa.

A psicóloga Barbarino alerta que “não há um tempo específico” para sentir os efeitos positivos da adoção. “Percebemos isso a partir do vínculo que for se formando entre ele e os tutores pelo comportamento apresentado”, diz. “Sempre é recomendado que, para uma boa manutenção da saúde mental, a gente faça exercícios, se conecte com a natureza, faça passeios ao ar livre, acompanhe a saúde física com profissionais e, se possível, faça terapia também”, complementa.

Fig 5. Adoção de um pet precisa vir acompanhada de outras atividades e cuidados. Créditos: Mr Vito/Getty Images

Um estudo publicado no Journal of Adolescence, citado pelo G1, reforça esta abordagem complementar – ao estudar a relação de animais com crianças ou adolescentes. O veículo ouviu Megan Mueller, professora da Universidade de Tufts, nos EUA, que diz que “um dos resultados mais consistentes até agora é que a qualidade da relação parece importar, e não apenas se há ou não um cachorro em casa”.

Na avaliação da professora, apenas a presença do animal não é o suficiente. As atividades que acompanham a adoção são necessárias, como atividades fora de casa, participar de cuidados e passar tempo de qualidade com o pet.

Como adotar um pet?

Os caminhos para a adoção podem ser muitos. Animais resgatados por ONGs, amigos, familiares, associações e instituições especializadas em cuidados animais, entre outros. É possível entrar em contato se informar e buscar a melhor forma e o pet que se enquadra na sua realidade e dentro das responsabilidades cabíveis.

Um exemplo é a Focinhos do Castelo, uma organização de adoção de pets fundada em 2017, localizada no bairro de Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro. A entidade trabalha com voluntariado, adoção e divulgação para promover encontros de amor entre humanos, cães e gatos. O contato pode ser feito por meio do Instagram @focinhosdocastelo.

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Fontes consultadas:

Interação humano-animal: o apego interespécie. Perspectivas em Psicologia, [S. l.], v. 23, n. 2, p. 124–142, 2020. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/perspectivasempsicologia/article/view/52223. Acesso em: 5 out. 2026.

RODRIGUES, Érica Bartolomeu. RELAÇÃO ENTRE O VÍNCULO HUMANO-ANIMAL, COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS E BEM-ESTAR PSICOLÓGICO EM ADULTOS. INSTITUTO UNIVERSITÁRIO EGAS MONIZ, 2025. Disponível em: http://hdl.handle.ne t/10400.26/61046. Acesso em: 05 out. 2026.

PEIXOTO, Roberto. Seu filho quer um cachorro? Estudo mostra o que importa nessa relação, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/08/23/cachorro-estudo-o-que-importa-nessa-relacao.ghtml. Acesso em: 07 out. 2026.

Cuidar de cães pode reduzir em 40% a incidência de demência, aponta pesquisa, 2024. Disponível em: https://institutodelongevidade.org/longevidade-e-saude/saude-mental/cuidar-de-caes. Acesso em: 07 out. 2026.

 

Por Felipe Vinha e Milena Januário (sob supervisão de Felipe Vinha)

 

Data Publicação: 08/10/2026