
Fig. 1: Pesquisadora utiliza equipamentos de laboratório para analisar substâncias durante o desenvolvimento de medicamentos. Créditos: Dragos Condrea/ Getty Images
Da descoberta de uma substância aos testes em humanos, conheça as etapas da pesquisa que leva um medicamento do laboratório para a farmácia
Um comprimido comprado na farmácia pode ser resultado de anos de pesquisa. Antes de chegar às mãos dos pacientes, os remédios precisam passar por diferentes etapas de investigação para que os pesquisadores avaliem se eles funcionam, quais são seus riscos e como devem ser utilizados. Entretanto, você sabe como começa esse processo?
Tudo começa com uma pergunta
O desenvolvimento de medicamentos pode partir de uma pergunta sobre o funcionamento do organismo ou de uma doença. Os cientistas estudam o que acontece no organismo durante uma doença e procuram um alvo, isto é, uma parte do corpo envolvida com o problema. Esse alvo pode ser uma proteína que ajuda a doença a avançar.
A partir daí, começa a busca por substâncias capazes de interagir com esse alvo. Elas podem ser encontradas na natureza, produzidas em laboratório ou desenvolvidas com auxílio de ferramentas computacionais. As substâncias mais promissoras são selecionadas e estudadas para verificar sua atividade e suas propriedades.
Nem toda substância vira remédio
Encontrar uma substância que produz o efeito esperado é apenas o começo. Os pesquisadores estudam as menores partes dessas substâncias, ou seja, suas moléculas. Elas precisam apresentar características adequadas, como estabilidade, capacidade de chegar ao local de ação no organismo e segurança em condições de uso.
Por isso, os pesquisadores realizam testes em células, proteínas e outros sistemas experimentais. As moléculas mais promissoras podem avançar para estudos pré-clínicos, que investigam aspectos como toxicidade, metabolismo e possíveis efeitos adversos. Essas pesquisas podem incluir testes em animais, como camundongos e ratos, de acordo com regras definidas por leis e comitês e de ética.

Fig. 2: Pesquisadora realiza experimento para investigar os efeitos de substância que pode virar medicamento. Crédito: janiecbros/ Getty Images
Quando começam os testes em pessoas?
No Brasil, os pesquisadores precisam da aprovação de um Comitê de Ética antes de testar um medicamento em pessoas. Também precisam da autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) se o objetivo for pedir autorização para venda do remédio.
Essas etapas ajudam a proteger os participantes e a garantir a qualidade dos dados produzidos. A autorização para realizar os testes, porém, não significa que o medicamento já esteja aprovado para ser comercializado.
Na fase 1, os estudos avaliam principalmente a segurança, a tolerabilidade e o comportamento do medicamento no organismo. Na fase 2, investigam se o medicamento produz o efeito esperado e continuam avaliando a segurança em pessoas com a condição estudada. A fase 3 reúne grupos maiores para produzir evidências mais robustas sobre os benefícios e os riscos do tratamento.
A fase 4 corresponde aos estudos e às investigações realizados após a aprovação, conforme os objetivos da pesquisa. As etapas não são idênticas para todos os medicamentos, e o desenvolvimento pode ser interrompido quando os resultados não são satisfatórios.
Quem decide se o medicamento pode ser vendido?

Fig. 3: Remédios de diferentes formatos à venda na prateleira de uma farmácia, representando os medicamentos disponíveis para tratamento de doenças. Crédito: Drs Producoes/ Getty Images
No Brasil, a Anvisa avalia os dados apresentados para o registro de medicamentos. A análise considera aspectos como qualidade, segurança e eficácia para o uso proposto. A aprovação não significa que o produto esteja livre de riscos, mas que as evidências apresentadas sustentam seu uso nas condições autorizadas.
Mesmo depois de chegar às farmácias, o acompanhamento continua. Esse tipo de vigilância reúne informações sobre suspeitas de reações adversas e outros problemas relacionados ao uso de medicamentos, contribuindo para identificar riscos que podem não ter sido observados anteriormente.
E quando a pesquisa não dá certo?
Muitos “candidatos” a medicamentos são abandonados ao longo do desenvolvimento porque não demonstram eficácia suficiente, apresentam problemas de segurança ou não possuem propriedades adequadas. Estudos sobre o setor farmacêutico identificam a falta de segurança e a toxicidade entre as principais causas de fracasso.
Desistir de uma molécula também faz parte da pesquisa científica: os resultados ajudam a orientar novas investigações e a evitar que substâncias inadequadas avancem para etapas posteriores.
Transformar uma molécula em medicamento, portanto, exige muito mais do que descobrir uma substância capaz de produzir determinado efeito. É necessário reunir evidências, avaliar riscos e benefícios e acompanhar seu uso. Esse percurso ajuda a compreender por que a ciência não oferece atalhos quando o assunto é a saúde.
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Fontes consultadas
ANVISA. Pesquisa clínica. Brasília, DF: Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/pesquisaclinica . Acesso em: 12 out. 2026.
ANVISA. Registro de novos medicamentos: saiba o que é preciso. Brasília, DF: Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2018/registro-de-novos-medicamentos-saiba-o-que-e-preciso/. Acesso em: 12 out. 2026.
U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). The Drug Development Process. Disponível em: https://www.fda.gov/patients/learn-about-drug-and-device-approvals/drug-development-process. Acesso em: 12 out. 2026.
WARING, Michael J. et al. An analysis of the attrition of drug candidates from four major pharmaceutical companies. Nature Reviews Drug Discovery, v. 14, p. 475–486, 2015. DOI: https://doi.org/10.1038/nrd4609
Por Rodrigo Narciso
Data Publicação: 14/10/2026
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